O Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL) registou nas últimas semanas uma volatilidade que não se via desde o inverno de 2022. As cotações no mercado spot passaram de cerca de 65 euros por megawatt-hora no início de março para um pico de 92 euros a 14 de março, antes de recuarem para os 58 euros no final do mês. Esta oscilação de mais de 40% em poucos dias tem preocupado tanto os agentes do mercado como os reguladores de Portugal e Espanha.

Os analistas apontam uma conjugação de fatores para explicar este comportamento incomum. Por um lado, o mês de março foi marcado por um período prolongado de tempo anticiclónico, com ventos fracos que reduziram drasticamente a produção eólica em toda a Península Ibérica — uma fonte que normalmente cobre entre 20% e 35% do consumo elétrico português. Por outro lado, as baixas temperaturas noturnas prolongaram a época de aquecimento, mantendo a procura elevada quando a oferta renovável escasseava.

A situação foi agravada pela indisponibilidade temporária de duas centrais de ciclo combinado a gás natural em Espanha, que se encontravam em revisão programada. Com menos capacidade de reserva disponível, os preços reagiram de forma amplificada a qualquer desequilíbrio entre oferta e procura. Este é precisamente o tipo de situação que os críticos do encerramento acelerado de centrais térmicas convencionais têm vindo a alertar: a descarbonização necessita de ser acompanhada de investimentos robustos em armazenamento e interligações.

Para os consumidores domésticos com contratos indexados ao mercado spot, este período traduz-se diretamente em faturas mais elevadas em março. As estimativas de vários comercializadores apontam para um acréscimo de 12 a 18 euros na fatura de eletricidade de um lar médio em comparação com fevereiro, embora os valores exatos dependam do perfil horário de consumo e do índice específico utilizado no contrato.

Os consumidores com tarifas fixas ficaram protegidos desta volatilidade, o que reabre o debate sobre qual o tipo de contrato mais vantajoso. Os defensores das tarifas indexadas argumentam que, em média anual e nos últimos cinco anos, essas tarifas resultaram em poupança face às tarifas fixas. Porém, os defensores da previsibilidade respondem que o valor da certeza não se mede apenas em euros, especialmente para famílias com orçamentos domésticos ajustados.

A ERSE acompanha a situação e confirmou não ter detetado comportamentos de abuso de posição dominante ou manipulação de mercado. O regulador recorda que Portugal tem mecanismos de proteção para os consumidores vulneráveis e que a tarifa social de eletricidade — que beneficia cerca de 900.000 famílias — é imune a estas flutuações por ser subsidiada pelo Estado. Para os restantes, a mensagem é clara: conhecer o tipo de contrato que se tem é o primeiro passo para gerir melhor as despesas energéticas.

A volatilidade que observámos em março é um sinal de que a transição energética precisa de ser gerida com cuidado. Não basta fechar centrais — é preciso garantir que a alternativa está pronta a substituí-las em todos os momentos, incluindo os de ponta.

Professor João Batista Simões, especialista em mercados de energia, Universidade Técnica de Lisboa

Pontos-chave

  • O MIBEL registou oscilações de mais de 40% nas cotações spot em março de 2026
  • Produção eólica fraca e centrais a gás em revisão foram os principais fatores da volatilidade
  • Contratos com tarifa fixa protegeram os consumidores das subidas de março
  • A tarifa social de eletricidade (900.000 beneficiários) é imune a flutuações de mercado
  • Os consumidores devem verificar se o seu contrato é de tarifa fixa ou indexada ao mercado

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